Combate à corrupção não é prioridade do eleitor de BH, diz pesquisa

Sessenta e cinco porcento dos eleitores de Belo Horizonte se consideram muito intolerantes em relação à corrupção. Apesar disso, no contexto de estabilidade econômica, este é um tema que está longe das prioridades e tem pequena influência no seu processo de decisão de voto. Na agenda do eleitor belo-horizontino, a corrupção não só ocupa em importância a última posição entre cinco temas avaliados – a saúde, segurança pública, educação e trânsito são considerados mais importantes –, como também, ao longo da campanha para a prefeitura da capital no ano passado, sua posição de “lanterna” no ranking do eleitor não se alterou.

As constatações são de Helcimara Telles, cientista política, professora da UFMG e coordenadora do grupo de pesquisa opinião pública, marketing político e comportamento eleitoral, a partir de pesquisa inédita realizada em outubro entre eleitores da capital mineira e, simultaneamente, de acompanhamento dos conteúdos dos portais de notícia e das redes sociais de 14 capitais brasileiras. Denominado “Corrupção, mídia e redes sociais”, o desenho metodológico está também sendo conduzido em Portugal e em Moçambique, dentro do termo de cooperação firmado entre o Centro de Investigação em Meios e Jornalismo de Lisboa e o grupo de pesquisa da UFMG.

A partir de um conjunto de questões sobre a atitude de eleitores belo-horizontinos face a atos antiéticos ou de corrupção, a pesquisadora gerou um índice de tolerância à corrupção, associado ao conceito de maior ou menor aceitação do problema que atinge velhas e novas democracias. “Enquanto 65% dos eleitores de Belo Horizonte apresentam alta intolerância à corrupção, 26% manifestam tolerância mediana e 9% alta tolerância à corrupção”, avalia Helcimara Telles.

Ter alta intolerância à corrupção significa dizer que, se estivessem no lugar de um agente político, em média 65% dos eleitores de Belo Horizonte, repudiariam veementemente situações como a troca de voto a favor do governo por um cargo para familiar ou amigo; o uso de caixa 2 em campanhas eleitorais; e o nepotismo para os cargos de confiança. Esses mesmos eleitores informaram ainda que, se fossem políticos, não aceitariam mudar de partido em troca de dinheiro ou de vantagens, como empregos para familiares. Eles também afirmam que não aceitariam dinheiro de empresas privadas para fazer viagens nem o uso de viagens oficiais para lazer próprio e de familiares.

“Entre esses belo-horizontinos que toleram menos a corrupção, há mais mulheres do que homens, há mais eleitores com idade acima de 60 anos do que nas demais faixas etárias e mais eleitores identificados com o PV do que com outros partidos políticos”, informa Helcimara Telles. Entre os 9% que demonstram uma atitude menos rígida com atos antiéticos e de corrupção, há mais homens do que mulheres e há mais eleitores jovens de 18 a até 40 anos. Há ainda nessa categoria de maior tolerância com a corrupção mais eleitores que se declaram simpatizantes do PMDB, do PT e do PSDB, legendas que se revezam no governo federal nas últimas duas décadas. “A exposição desses partidos no poder faz com que os eleitores identificados com eles fiquem mais cínicos”, avalia a pesquisadora.

Prioridades

A atitude prevalente entre eleitores de Belo Horizonte de baixa tolerância com desvios e atos antiéticos, entretanto, não se reflete no momento em que priorizam a sua pauta política e as ações que esperam implementadas pelos governos em áreas que afetam fortemente a sua vida. Não à toa, a saúde, indicada por cerca de 44%, seguida, da segurança pública e da educação – ambas com preocupação de 14% – e do trânsito, principal questão apontada por cerca de 10%, foram os primeiros problemas elencados pelo belo-horizontino ao longo de cinco rodadas de pesquisas de opinião realizadas entre agosto e 7 de outubro, dia das eleições. Em quinto lugar em termos da preocupação do eleitor da capital mineira, a corrupção apareceu como o principal tema apenas para 2% dos eleitores.

A priorização da temática da corrupção na agenda do eleitor está, na avaliação de Helcimara, muito associada aos contextos econômicos. “Em países em crise econômica, caso da Espanha e de Portugal, o desalento dos indivíduos se associa também a uma maior percepção da corrupção e maior intolerância a esses desvios. Na medida em que um governo vai muito mal, o eleitor tende a atribuir sentidos negativos dos atributos morais ao seu candidato”, afirma a pesquisadora. O inverso é verdadeiro: em economias prósperas ou estáveis, emergem na pauta do eleitor, não a corrupção, mas as questões que afetam mais de perto a sua vida, num contexto de satisfação mais geral com a economia e o seu padrão de vida.

Explosão nas redes sociais

O uso da internet como instrumento de informação pelos eleitores de Belo Horizonte saltou de 6% para 26%, entre 2010 e 2012. Para avaliar a temática da corrupção e a campanha eleitoral, o Observatório das Eleições monitorou portais de notícia e redes sociais em 14 capitais, entre 31 de julho e 7 de outubro, para detectar menções aos candidatos a prefeito. Só em Belo Horizonte, pelo Facebook e Twitter foram contabilizadas, nessa ordem, 33.020 e 20.419 postagens no período analisado.

No contexto do julgamento dos réus do mensalão, nos portais digitais e nas redes sociais, a temática da corrupção “explodiu” após o início da propaganda eleitoral gratuita. O principal foco das campanhas nas redes sociais, que mantiveram equipes profissionais e contaram também com eleitores engajados, foi a desconstrução das candidaturas, avaliou o pesquisador Pedro Fraiha.

Por Bertha Maakaroun

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